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O teu tempo é contabilizado pela forma como o aproveitas.

Parecem só segundos. Parece uma mera contagem de um tempo que nada alterará. No entanto, poucos segundos podem mudar tudo. Há, de certo, algo intelectual que eu podia dizer sobre o tempo. Sobre a influencia de este ou aquele factor. Sobre a distinção de amigos, colegas e pessoas passageiras, sobre o que todas elas têm em comum. Mas só quero pedir-te que tenhas atenção aos segundos. A cada um deles. A cada olhar que passa despercebido. A quem te sorri no refeitório da escola. A cada gentileza escondida, a quem caminha mais devagar para te dar o lugar na fila do supermercado, a quem te segura a porta do centro comercial para que possas passar também. A cada "estás bem?". São segundos. Nada mais que segundos. Apenas isso, uma fracção de tempo em que podes começar ou acabar com tudo. Não te peço que olhes de forma diferente quem te dá um segundo do seu dia. Peço-te apenas que os olhes. Que faças de cada gesto uma corrente, um ciclo. Que tires dos melhores e dos piores exemplos, ...

É o que tens agora e não tinhas dantes ou o que não tens agora mas já tiveste um dia?

Li nos documentos de psicologia que, às vezes, a perda involuntária de tudo o que nos rodeia nos afecta de uma forma inigualável. Essa perda foi totalmente culpa tua e suponho que isso te deixou nesse estado de calamidade. Mas, por favor, faz-me entender aquilo que não vem nos documentos de psicologia. O que se passa contigo, tio? Não espero pelas tuas respostas, assim como nunca esperei que acordasses num dia de Inverno com um sol ligeiro e tudo isso estivesse irremediavelmente corado. Eu sei que há muita coisa que não sabes e outras que consideras saber de cor. Mas quero contar-te uma coisa e farei como tu me fazias à alguns anos atrás, quando tinhas tudo o que já não tens. Deito-te na cama, sento-me à beira dos teus pés, pego num livro ao acaso e leio os meus pensamentos como se eles ali estivessem escritos e ilustrados. Digo: "Perdoo tudo o que nos disseste e tudo o que disseste de nós. Não importam as pessoas que deixaste escapar, nem quantas delas ainda se importam com a p...

Recordar mata.

Dizem, por fim "Recordar é viver.." e eu recordo. Lembro-me das manhãs de Inverno, as tantas que aí passámos, o Bruno balançava-me na cama e chamava-me baixinho para que acordássemos enérgicos e fossemos tratar daquilo que achávamos poder ser o nosso futuro. Os cavalos. O Texas era sempre menos impulsivo e o Kid sempre mais... Mais como eu, digo. Lembro-me de cada aniversário, desta vez em manhãs de Verão, começávamos de cedo a procurar pelas ruas da pequena aldeia as mais belas flores, embrulhávamos caules em alumínio e esperávamos que não notasses a quantidade que gastáramos. Fazíamos os cereais para a tia e o café quente para o tio. Subíamos as escadas em caracol e corríamos para a única porta sem maçaneta por dentro, saltávamos para a cama e ali ficávamos apenas no entretém dos saltos. Lembrar-me-ei sempre do sorriso natural que recebíamos mesmo quando sabíamos que em seguida ouviríamos uma pequena palestra sobre "não apanhar flores vivas se as vamos deixar morrer...

«Vivo num país onde a pobreza está legalizada»

É medonha. É medonha a indiferença humana. Medonha a descrença no mendigo que só precisa da hipótese que todos lhe negam. É medonha a desvalorização do próximo, só porque é o próximo e não o próprio. São medonhas, as pessoas. Medonhas, ainda mais, as suas atitudes. Contesto. Contestarei sempre. E não entendo quem não se contenta com o pouco que tem, sabendo que há quem tenha menos. Tu vives, mas há quem não coma e sobreviva do pior jeito, do jeito que dá. Mas ainda assim, não contestas. Calas-te e vives bem com o teu silencio interior. Vives melhor ainda com o teu silencio exterior. Abres a boca para comer, fechas a boca para mastigar. Abrem a boca para gritar, fecham a boca porque ninguém os ouve. Nem tu! Não ouves os gritos de quem te pede ajuda em silêncio? Não vês nos olhares dos mais fracos? Não percebes quantos dos teus cêntimos podem parecer milhões nas mãos de quem não vê a sopa que comes há tanto tempo quanto um cego não vê as cores? É desumano que digas que não sentes nada. ...

Estar sozinha não é o oposto de estar com alguém.

Estar sozinha é interessante, mas igualmente angustiante. Entende-me. Estar sozinha é fechar as mãos no meio do nada, quando atravessas a rua a correr e não tens uma mão para segurar. É acordar sem saber o que será do dia, porque planear sozinha nos dá preguiça e é tão chato. É dizer a coisa mais engraçada do mundo para alguém que não vai rir, porque ninguém está ali. É ficar louca sem cúmplice. Não tem qualquer interesse ser fora da lei sozinha. É querer contar tanta coisa a alguém, mas não ter ninguém para escutar.  A vida simplesmente acontece para quem está sozinha, às vezes sem que o percebamos, porque é mais fácil ter noção de si mesma através de outra pessoa. Estar sozinha é comer doces demais, porque a boca precisa de um incentivo para continuar a salivar vida. É comer doce demais, porque estar sozinha dá uma tremedeira estúpida de hipoglicemia. É o doce que substitui mal e amargamente o sexo. Estar sozinha é dormir até tarde no domingo. Não para congelar o tempo na alegri...

Prometo Errar.

Há quem prometa não falhar, outros juram não cometer percalços injustos. Eu prometo errar. Prometo que, em algum momento, eu vou cometer um erro tremendo que quase te fará desistir de tudo, até da vontade de ser certo comigo. Conheço-me e sei de cor todos os meus erros, incluindo os que ainda não cometi. Sei que há em mim um lado que gosta de errar e outro que se esforça até à última gota de suor para que aquele erro não seja um erro e sim um acerto. Não posso, por isso, prometer que nunca irei errar. Mas posso precaver-me e a melhor maneira de o fazer, seria afastar-me das pessoas com quem não quero errar. Mas ao lado do meu 'eu' errado, está um 'eu' que quer ser certo. Eu nunca me senti certa. Nunca encontrei o lugar certo para passar as tarde de sábado, a pessoa certa para correr comigo nas manhãs de domingo, a comida certa para fazer em todos os almoços que passo sem fome, o balão certo para voar uma única vez, ou sequer a confiança certa para acreditar que, um dia...

Rumos descontrolados.

São rumos, meu bem, apenas rumos. Não sei qual é o meu ou até que ponto ele coincide com os restantes dos corpos e almas à minha volta. Mas de que me serve planear a vida, se tudo se resume, inevitavelmente, aos rumos que seguimos? Aos rumos que temos destinados. Acredito em rumos como um pescador acredita que é preciso um dom para pescar. Acredito, sim, que é preciso um dom para viver. Porque tal como na pesca, tu és apenas uma linha transparente que é lançada à água na intenção de agarrar algo. Tens de agarrar algo da vida que te faça sentir útil. Pergunto-me até que ponto a nossa vida poderia mudar se não tivéssemos feito algo tão simples como ir ao supermercado naquela tarde cinzenta ou, por outro lado, não ter ido ao supermercado nessa mesma tarde. Poderia eventualmente surgir alguém que nos encantasse da forma mais bizarra. Então, de que serve os rumos se não temos controlo neles? Estão traçados. Chamam aos rumos "Destino". Eu chamo-lhe 'Futuro', seja lá o que ...