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"O que vais fazer com a única vida que tens?"

Perguntou-me um filme. Travei a respiração, olhei em frente e nada disse. É duro quando alguém nos confronta com uma pergunta que pode simplesmente mudar o teu dia, ou posteriormente, mudar a tua vida. Mas é ainda mais duro quando não sabes a resposta. Aliás, suponho que seja. Sei qual é a minha. Correrei na relva fresca, saltarei o mais alto possível. Cantarei tudo o que não sei e um dia, espero vir a saber. Responderei bem alto ao que não tem resposta. Viverei os sonhos e os desafios como se aquele segundo fosse o único que me faltaria viver. Não deixarei nada para trás, nem mesmo o passado. Contarei os meus medos mais ridículos a quem nada teme. Acreditarei nas pessoas mesmo quando elas provarem todos os dias que não merecem qualquer aceitação da minha parte. Descobrirei o improvável e torná-lo-ei vulgar. Ponderei sobre o futuro e perceberei que o melhor será certamente viver o presente. Farei da única vida que tenho uma vida que valha a pena recontar um dia. Farei dela uma históri...

Felicidade alheia.

A noção de felicidade está tão alterada que pessoas felizes dizem-se carentes de alegria. A felicidade é subtil, instantânea e vulgarmente representada por sorrisos ou gargalhadas. Mas o quê há para além de representações que podem ser simplesmente manuseadas? A felicidade é uma poesia que não precisa de rimar. Creio que o mundo precisa de pessoas que não olhem para a felicidade como sendo imensas coisas enormes, mas sim algo enorme constituído por centenas de pequenas coisas. Um pedaço de melancia, um gole de água fresca, uma música que arrepia. A felicidade é tão simples. Um abraço de quem nós não víamos há algum tempo, um carinho de um amigo, um beijo na testa enquanto as lágrimas rolavam. É cheiro de café passado, o susto que passa logo, a lambidela do cão no nosso nariz e o perfume de uma flor. A felicidade é serena. Uma ferida que sara, a calça que finalmente serve, a tão desejada voz do outro lado do telefone. Um filho que aprende a dizer mãe, a receita que funciona, o olhar qu...

Quero viver.

Eu quero viver. É, exactamente, isso. Quero viver intensamente. Quero ser lembrada por tudo o que fiz. Digo, quando alguém disser o meu nome e aquela lágrima estiver prestes a cair, eu quero que essa pessoa deixa escapar um suspiro e diga : "Ela costumava contar uma excelente piada!". Quero que essa piada seja recontada pela rua como sendo uma memória minha e além disso quero que as idiotices que fiz a vida toda se tornem elas próprias uma piada a ser contada. Quero ser lembrada por memórias felizes. Não quero que chorem com uma partida que fora inevitável, quero apenas que digam que valeu a pena cada segundo passado na minha companhia. Quero que se riam do som a que a minha gargalhada soava e que gritem tão alto quanto eu, quando sentirem necessidade disso. Quero que digam o quanto odiavam a forma como eu devorava a comida e que recordem os mais esquecidos que eu tinha um péssimo humor ao acordar. Quero que falem dos meus cabelos completamente deslocados e do quanto eles er...

À minha melhor amiga.

Eu sei. Hoje é um dia muito especial para ti. Sei que será o primeiro ano em que não poderás sentar-te ao meu lado na aula e pedir-me baixinho que não te cante os parabéns lá no meio do átrio da nossa escola. Desta vez, não o farei, eu prometo e não imaginas o quanto lamento por não o poder fazer. Durante os últimos 5 anos, eu tive de lidar contigo todos os santos dias, mesmo quando o teu sistema nervoso estava ligeiramente descontrolado e a minha paciência tinha sumido por completo; mesmo quando eu contava piadas secas e tu me chamavas de ‘parva’ mas depois não evitavas rir, provavelmente nem era da piada, mas eu preferia sempre achar que sim; mesmo quando as ‘pessoas adultas’ achavam que não passávamos de duas crianças e nós, armadas em crianças, ofendíamo-las carinhosamente. Eu aprendi a lidar com a tua teimosia, com o teu mau feitio, com aquela tua mania estúpida de seres organizada e apontares sempre tudo aquilo que eu não sabia, com o teu ódio natural por tudo aquilo que eu ador...

Troquei cabelos por palavras.

Ontem passei pelo corredor principal da escola. Estaria, de certo, tudo bem se hoje tivesse sido como em todos os outros dias, mas havia algo que não estava igual. A decoração. Haviam chapéus de chuva no tecto e neles, frases foram penduradas. 'Elahi dissera uma vez à mulher que gostaria que houvesse um cerebeleiro, um homem que penteasse pensamentos, cortasse memórias, alisasse ideias.' Estaria tudo bem, aliás, eu sei, deveria estar tudo bem. No momento, confesso que estava, mas quando caí à cama e olhei para o tecto branco sem qualquer decoração, pensei na hipótese, de todos nós, sermos, secretamente, cerebeleiros da vida. O facto é que todos temos o dom de pentear os nossos pensamentos e até as emoções, talvez não possamos cortar as memórias mas ainda podemos fazer-lhes madeixas para que se tornem mais agradáveis e alisar as ideias é algo que faz bem a qualquer um. Elahi sabe o que diz, só não sabe que o que diz pode ser real. No entanto, para isso estamos cá nós, cereb...

Mulher, um ser incrível.

A mulher diz tudo o que sente. Sim, ela diz. Mas com uma grande diferença: sem dizer nada. Sabes quando ela demora a responder às tuas mensagens? Ela aguentou-se o dia inteiro para te mostrar que não teve tempo e que não se importa tanto quanto parece. Sabes quando ela não te chama? Anos de estudos para fazer um doce. Está apenas a fingir que não está a morrer de saudades tuas. Sabes quando ela passa reto de nariz em pé, toda linda e esnobe? É o ”vou fingir que não te vi”. Sabes quando ela não te responde à primeira? Apenas um teste para ver se estás interessado o suficiente para a chamares de novo. Complicadas. Inteligentes. Superiores. Enquanto eles se acham espertos elas simplesmente são. Sem ter que achar nada. Ela diz que te odeia e manda-te ir embora, mas experimenta sair de perto dela para ver o que acontece. Ela desliga o telemóvel na tua cara e diz que vai sair à noite com as amigas porque tu nunca a mereceste. Mas na maioria das vezes ela deitasse na cama e chora. Seres extr...

Barco de papel afundado.

O mar está revoltado, mas ele demonstra-o. Eu acho que já não sei sequer fazê-lo. Talvez devesse encontrar um colete que me deixasse a boiar sobre estas ondas gigantes que se aproximam do chamado 'tsunami', mas não tenho mais forças. Não tenho força nas pernas e sempre que me ergo, o vento derruba-me num sopro leve e curto. Não há ninguém nesta praia que avisto e nenhum avião por estes céus passeia. Estou sozinha. Incrivelmente sozinha. Totalmente sozinha. Sem noção do norte e do sul. Não há qualquer bússola e os mapas foram rasgados à anos. Não sei mais nada, não sei de mais ninguém. Nem mesmo de mim. Afinal, o que eu sou? Desconfio que sou apenas qualquer coisa. Um qualquer coisa que ninguém vê, talvez porque está perdido num barco sem remos, nem vela, nem timão. Sou a pessoa que representa um caminho menos bom, talvez até péssimo. Sou quem faz os outros entenderem o porquê de deverem seguir outros caminhos. Sou quem faz os outros dar valor aos bons caminhos. Nunca fui o m...